Terça, 30 Maio 2017 16:40

Um abismo sem fundo? A resposta pessimista e a otimista

Por que há décadas tentamos fazer reformas que nos coloquem no rumo do crescimento sustentável e não conseguimos?

Há décadas, o Brasil cambaleia como um bêbado à beira do abismo, mas nesta semana, após as denúncias do grupo JBS, o ébrio disparou para a borda do penhasco.

Apesar da urgência do momento, não pensemos só no resgate – mesmo com as incertezas, ele virá –, discutamos a cura do alcoolista. O curso cambaleante do Brasil e suas recorrentes crises de governabilidade não são exclusividade nossa, seguem um roteiro típico que economistas institucionais denominam de “extrativista”.

Nesse tipo de país, grupos rivais, ora se compondo, ora em conflito, dominam instituições no Judiciário, Executivo e Legislativo, e expropriam parte da renda para si e distribuem outra a um eleitorado cativo. O resultado? Capitalismo de compadrio, corporativismo e populismo de direita e esquerda, desdobrando-se em má qualidade da gestão pública, corrupção e crises.

Sob instituições tão disfuncionais, nenhuma política econômica se sustenta. No caso do Brasil, seria preciso, em paralelo às reformas econômicas, reformar o sistema eleitoral, tributário, o Judiciário, as agências reguladoras e as empresas públicas. Promoveríamos a fé no trabalho duro, responsabilidade fiscal e ênfase na educação, chaves do desenvolvimento.

Mas por que há décadas tentamos e não conseguimos? Segundo a resposta pessimista, nesses países, passada a urgência, as melhores reformas serão deformadas e minadas pela mentalidade local. Seria preciso séculos de aprendizagem social para mudar mentalidades e desarmar forças do atraso(path dependent development).

Superada a crise aguda, a população pouco escolarizada continuaria caindo na sedução de populistas de esquerda e direita, sem entender a necessidade de reformas institucionais para combater a corrupção e a má gestão.

A resposta otimista reza que, em meio às crises, lideranças modernizadoras podem ascender. Tal como ocorreu em países em situações tão precárias, como Coreia do Sul, Cingapura, China, Estônia, Chile e Irlanda (até mesmo Peru e Colômbia). Apesar dos diferentes graus de sucesso de cada história, haveria três lições a aprender.

Primeiro, políticas econômicas podem variar do intervencionismo ao liberalismo, mas é vital mirar no aumento da produtividade e inovação. Segundo, reformas econômicas só se sustentam se houver reformas institucionais que se enraízem no país. E, terceiro e mais importante, ambas as reformas demoram a trazer resultados, sua aceitação depende da postura inicial dos líderes e população. Quanto à postura dos líderes, sejam de início autoritários, como na Coreia do Sul, Cingapura, China, Chile, ou eleitos democraticamente, como na Estônia, Irlanda e Peru, para terem sucesso devem:

1) Motivar a população em torno de um projeto de nação a longo prazo.

2) Ter foco na eficiência (muitos importavam as melhores práticas e buscavam consultorias estrangeiras).

3) Ser pragmáticos e dispostos a corrigir os próprios erros.

Quanto à atitude das populações, ao contrário do mito de que teriam mentalidades confucionistas ou calvinistas, muitas eram, mesmo no caso de “tigres asiáticos”, pouco educadas, individualistas, tolerantes com a corrupção e passivas. Mas, como em qualquer país, dispostas a trabalhar duro por projetos de longo prazo, se percebidos como legítimos e inclusivos. E, em algum momento, graças a campanhas de esclarecimento, ou intuitivamente, entenderam as limitações econômicas e os prazos envolvidos num projeto de nação.

Numa visão otimista de Brasil, o mais difícil não seria motivar a população, mas superar a passividade e a baixa autoconfiança das lideranças esclarecidas que poderiam nos tirar do atoleiro. Em vez de emigrarem ou esperarem uns pela ação dos outros, nada impede que líderes lúcidos, situados nos partidos, na sociedade civil e na mídia, se articulem. E, como já ocorreu em outros países, que aprendam a se comunicar com a população e a mobilizem por um projeto realista e ambicioso de nação. Há sinais de que esse processo começa a fermentar por aqui. Ou continuaremos vivendo à beira do abismo.

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